MEMÓRIA AFOGADA – Obra de barragem na Paraíba ameaça Memorial das Ligas Camponesas em Sapé

MEMÓRIA AFOGADA – Obra de barragem na Paraíba ameaça Memorial das Ligas Camponesas em Sapé

Projeto que beneficiará latifundiários ameaça casa que era de João Pedro Teixeira, o “Cabra Marcado para Morrer”. Topógrafos começaram a medir região do município de Sapé onde vivem 700 famílias. Comunidades não foram consultadas

Por Luís Indriunas

Cerca de 700 famílias ligadas ao Memorial das Ligas Camponesas, na Paraíba, estão sob ameaça. Desde janeiro de 2022, os moradores das comunidades rurais do município de Sapé (PB) têm visto topógrafos realizando medições nos arredores das vilas e assentamentos, acompanhados de funcionários de fazendas da região. “Estão preparando um afogamento das nossas terras sem nos consultar”, alerta a presidente da organização, Alane Lima.

O Memorial fica na casa onde morava João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado em 1962 a mando de latifundiários e personagem central do documentário “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho. É uma casa de barro na entrada na vila de Barra de Antas, um local com poucos cômodos, mas com muitas imagens e histórias guardadas.

Segundo os camponeses, a intenção de construir uma barragem na região não é nova. Ela foi anunciada pela primeira vez nos anos 2000, mas informações esparsas começaram a surgir só em 2017. Segundo informações extraoficiais, trata-se de um projeto de contrapartida estadual para a transposição do Rio São Francisco. O único documento que os camponeses conseguiram foi um mapa dos topógrafos, que uma moradora conseguiu fotografar, e mostra que o trecho em questão atinge, além de Barra de Antas, outras quatro comunidades: Areia Vermelha, Sobrado, Pedreira e Nova Vivência.

Moradora tirou uma foto do mapa da barragem: a única informação que os camponeses têm. (Foto: Memorial das Ligas Camponesas)

O município de Sapé integra a região abrangida pela construção do Canal das Vertentes Litorâneas, principal obra de infraestrutura hídrica do estado. Dividido em três fases e com um investimento total de R$ 1,4 bilhão, o projeto liga a barragem de Acauã, no Agreste paraibano, à barragem de Araçagi, na Zona da Mata.

A Secretaria de Infraestrutura, Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Paraíba informa que as obras em Sapé já foram finalizadas e o município não entra na fase 3 do projeto. Questionado pelos moradores, o órgão não ofereceu respostas conclusivas sobre o objetivo dos topógrafos e agrimensores vistos pelos moradores.

CANAL BENEFICIA MONOCULTURA E AGRAVA CONFLITOS

Também conhecido como Acauã-Araçagi, o Canal das Vertentes Litorâneas visa atender com água potável 38 municípios da Zona da Mata paraibana, beneficiando mais de 600 mil habitantes. No entanto, em 2012, uma pesquisa com alunos da graduação de Geografia, coordenada pelo professor Pedro Costa Guedes Vianna, do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), apontou incongruências no projeto.

Vista Oeste do Canal das Vertentes Litorâneas. (Foto: Governo da Paraíba)

Além de levar água de Monteiro (PB), uma das regiões mais secas do Estado, para o litoral, onde chove em abundância, os pesquisadores apontaram que, para a região semiárida da Bacia do Rio Paraíba, a situação continuará praticamente a mesma, potencializando o risco de conflitos por água:

— As comunidades que não são abastecidas pelas adutoras ou por estes reservatórios ficarão praticamente na mesma situação, ou seja, por fora de toda estrutura do projeto. Está se montado o palco de um futuro conflito.

O estudo pondera ainda que o projeto tem como principais beneficiários os grandes produtores de cana e abacaxi da região. A fruta é uma das principais fontes de recursos de Sapé, que possui a segunda maior safra de abacaxi do país. Apesar disso, a produção em larga escala vem aprofundando os conflitos fundiários entre fazendeiros e posseiros, que lutam para transformar vilas rurais como Barra de Antas em assentamentos da reforma agrária.

TOMBADO, MEMORIAL TERÁ ATO E EXPOSIÇÃO DE FOTOS

A casa de Elizabeth e João Pedro Teixeira, hoje Memorial das Ligas Camponeses. (Foto: Divulgação)

Em 02 de abril de 1962, o líder camponês João Pedro Teixeira foi morto a poucos metros de sua casa por pistoleiros a mando de fazendeiros da Paraíba. Sessenta anos depois, sua casa será novamente local de celebração. Para relembrar o dia e as lutas iniciadas há 60 anos, o Memorial das Ligas Camponesas prepara um ato e uma exposição temporária com fotos do cotidiano e das tradições das comunidades.

“O memorial hoje tem um trabalho de preservação da memória, da história e também de organização, articulação, das associações, dos povos do campo, além de fazer trabalhos de agroecologia, direitos humanos e ações na perspectiva da Justiça de Transição de reparar os danos provocados, principalmente, pela ditadura militar”, explica o educador popular Weverton Rodrigues.

Se, por um lado, há ameaças como as da barragem, o Memorial vem obtendo vitórias para manutenção da memória popular. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba, a organização conseguiu, em 2021, através de emenda parlamentar, R$ 300 mil para a restauração do espaço. O projeto já começou a ser elaborado e pretende transformar o espaço em atração turística do estado. No ano passado, a área foi classificada como “de utilidade pública” pelo governo estadual.

Este ano, o grupo planeja retomar projetos agroecológicos paralisados pela pandemia, como as estações de irrigação para hortas. “A gente espera ampliar esses projetos, levando para mais moradores”, torce Gilmar Estevão da Silva, da comunidade de Barra de Antas.

MEMORIAL RETOMA HISTÓRIA DE JOÃO PEDRO TEIXEIRA

A história de João Pedro Teixeira e sua família se funde com a da luta pela terra e dos movimentos suprimidos pela ditadura de 1964. O camponês tinha um longo histórico de mobilização social: em 1945, fundou o sindicato dos Operários de Pedreiras (PB). Três anos antes, casou-se com Elizabeth Teixeira. Ela foi expulsa de casa pelo pai, que não concordava com o casamento com um “negro e pobre”.

Já com seis dos seus onze filhos, o casal seguiu para Sapé. Em 1955, a casa de João Pedro e Elizabeth foi local do primeiro encontro de camponeses de Sapé. A reação dos coronéis e latifundiários da Paraíba foi imediata: no dia seguinte João Pedro foi preso e espancado. Mas a luta só começava.

Em 1958, foi criada a Associação dos Lavradores Agrícolas de Sapé, na qual João Pedro tornou-se vice-presidente. O grupo se uniu a outros movimentos rurais, dando início às Ligas Camponesas.

A vida de João Pedro foi inspiração para o documentário “Cabra Marcado para Morrer“, de Eduardo Coutinho. Iniciado e interrompido em 1964, o longa metragem seria uma adaptação ficcional da história do líder popular, mas a gravação foi interrompida pela violenta repressão da ditadura militar contra as Ligas Camponesas. O filme tornou-se um documentário, que só foi estrear em 1984. Com Elizabeth Teixeira como a outra protagonista.

Apesar da articulação, não houve trégua para os camponeses mobilizados. Com a ditadura, as Ligas foram desarticuladas pela repressão, com prisões, mortes e torturas. A viúva de João Pedro continuou sua luta e precisou se separar dos seus filhos para sobreviver.

DE OLHO NOS RURALISTAS 24/03/2022

Redação GPS

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