Paisagens de um Momento

Paisagens de um Momento

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Nada mudou! O quadro que vislumbro tem moldura de ouro. Fica intacto o meu império, construído com muita esperteza, aliado ao suporte material que recebo a preços módicos, pois a fome é maior do que o orgulho próprio. Não sinto nem sentirei os efeitos da crise epidêmica, pois não sou obrigado a exposições em público e já vivo em isolamento luxuoso sob o teto arquitetônico de requinte inimaginável. Bendito isolamento! É de fazer inveja. Aqui me sinto sempre no céu, numa versão terrestre, não sei se isso é plausível, pois não conheço o outro lado de lá.

Daqui da minha cobertura fotografo as ruas quase que desertas. Que diferença faz isso pra mim? Nenhuma, claro. Muda a paisagem lá fora, mas a minha rotina é rigorosamente cumprida: verificar a soma de recursos financeiros e econômicos que disponho e que nenhuma crise em qualquer proporção pode afetar. Amanhã, se as coisas não funcionarem por aqui, tenho várias opções e uma delas é apertar uma tecla que me disponibilizou a tecnologia e os meus pomposos recursos materiais e financeiros me acompanharão aonde eu for. Atualmente poderia até ter uma preocupação: a quem vou recorrer para manter o status quo da minha riqueza? Ah! Isso posso ver depois! Pra que me preocupar com isso agora? Posso ficar inerte e mesmo assim não sofrerei “abalos sísmicos” em minha estrutura financeira. Deixo essa preocupação para os andares de baixo. Que se lixem! Fiz por merecer. O resto é vagabundo.

Tá difícil! A paisagem que enxergo é de incerteza. A constante luta pela sobrevivência sofre os impactos de uma pandemia que parece não ter fim. Ela se propaga como a querer nos trazer uma mensagem: “você não é ninguém”. Aliado às dificuldades do momento ainda tenho de escolher entre morrer do vírus devastador ou da fome, simbolizando uma foto 3 x 4. Difícil escolha, pois o final da linha é a morte. Estou otimista! Preciso manter o otimismo! Lutarei até o fim, para depois agradecer a Deus pela vitória alcançada e pelos ensinamentos que a pandemia me propiciou. Terei de mudar muita coisa no meu pensar, a começar pela gula do consumo desenfreado que sempre marcou a minha vida. Todo e qualquer tostão que eu pegava corria aos Shoppings Centers da vida comprar a melhor roupa, o melhor sapato, o top dos celulares, afinal, as minhas selfs precisam de aprimoramento constante. Ah, ia me esquecendo, precisa de alternativas para os restaurantes de luxo, onde lá ficava o último centavo do meu limite no cartão de crédito ou no cheque especial, sendo que depois tinha de me virar nos trinta para pagar ou cobrir.

Isso não será mais possível. Levar essa vida mundana do consumo desenfreado, que por vezes colocam coisas supérfluas no topo das prioridades, pulando etapas da teoria de Maslow, onde as necessidades são colocadas em níveis é atitude condenável de futuro, sob o olhar da sensatez. Em se mantendo a postura do filho pródigo o meu destino será o enquadramento na paisagem da miséria, sem moldura e sem perspectivas.

Quase nada mudou! Apenas observo a escassez de transeuntes em seus vai e vem constantes se acotovelando em busca de espaços nas ruas. Hoje posso ver a amplitude da paisagem do mundo. Olho para o céu azul e penso que também não mudou, apenas agora posso contemplá-lo com mais atenção. Aqui nada mudou. O meu teto continua sendo o céu, por vezes de brigadeiro e noutras sombrio como prenúncio de tragédias vindouras. Isso não importa, estou acostumado ás dificuldades que a vida me impõe. Digamos assim, estou calejado e não serão pequenos beliscões que sensibilizarão a minha pele causando pequenas dores.

Algo mudou e que vem me afetando substancialmente: a fonte do meu sustenta alimentar está se esgotando. Já não encontro os “banquetes de outrora” nos tonéis de lixo próximos aos restaurantes. Também, o pessoal de grife não está mais frequentando o glamour da gastronomia! O que está acontecendo? Ouvi falar num tal de corona vírus e numa senhora chamada pandemia. Segundo meus informantes, esses são causadores da retirada das ruas dos bancadores do meu sustento provindo do lixo do tonel. Se tiver oportunidade de falar com essas duas criaturas pedirei que elas tenham compaixão dos inquilinos do meu andar, pois sem o suprimento que nos alimenta o resultado poderá ser irmos à luta para a nossa sobrevivência e aí as coisas podem virar batalhas pela sobrevivência. O resultado é incerto.

Acima, três paisagens com as suas peculiares molduras para que possamos refletir sobre a nossa conduta daqui pra frente. Não é possível que não consigamos tirar nenhuma lição disso tudo. Não obstante, mantemos a esperança e a fé em dias melhores. Quando tudo passar, vamos intensificar ações visando a melhoria do orbe. Orgulho e prepotência já foram desmoralizados. Soberba, nem pensar. Somos pobres mortais no mesmo nível de subsistência. O melhor que podemos fazer é construir um novo mundo a partir da catástrofe que vivenciamos. Pessimismo? Não! Realismo para não continuarmos nadando nas águas da hipocrisia e da insanidade.

Nesse processo, precisamos, mais do que nunca, mantermos a fé, a esperança, e a confiança de que Aquele nos guia rumo a um lugar seguro, onde possamos conversar com Ele, sempre, e não apenas em nossas agruras mais acentuadas e momentâneas.

É preciso manter diálogo com DEUS!

Por JOSÉ RICARDO

COLUNA PONTO DE VISTA
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