Poeta sapeense é patrimônio vivo de Pernambuco e tem trajetória contada em livro

Poeta sapeense é patrimônio vivo de Pernambuco e tem trajetória contada em livro

Aos 93 anos, cordelista sapeense José Costa Leite tem sua trajetória publicada em livro pelo historiador Geovanni Cabral


As idas às feiras públicas da Zona da Mata de Pernambuco acompanhando o pai agricultor aguçaram a escuta do cordelista José Costa Leite ainda menino. Ouvir os repentistas e contadores que interagiam com os passantes fez ele começar a aprender a ler e anos depois transformar a atividade no ofício que o tornou Patrimônio Vivo de Pernambuco, em 2006.

Com os folhetos em mãos, arrastando uma mala com centenas de exemplares, Costa Leite atravessou a vida declamando e oferecendo seus escritos ao público. Hoje (27/07), dia em que celebra 93 anos, sua trajetória é publicada no livro Histórias e práticas culturais do poeta José Costa Leite (Editora Appris), do historiador Geovanni Gomes Cabral, à venda nas livrarias. O lançamento seria realizado em Condado, na Mata Norte, cidade onde mora o cordelista, mas precisou ser adiado devido à pandemia.

Nascido em Sapé, interior da Paraíba, Costa Leite se mudou com a família para Condado, aos 11 anos, onde passou a trabalhar nos engenhos de cana-de-açúcar. Sem acesso à escola, teve a alfabetização aliada aos primeiros versos escritos imitando o cordel. Aos 20 anos, vendeu os primeiros folhetos nas feiras, dois deles autorais: Eduardo e Alzira e Discussão de José Costa com Manuel Vicente.

 (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação

“Os folhetos não tiveram muito sucesso, mas fizeram com que ele continuasse a escrever”, conta Geovanni Cabral, que transformou a trajetória de Costa Leite em sua tese de doutorado. Em 1949, o cordelista começou a produzir tacos de madeira para os primeiros esboços de xilogravura, gravando neles a imagem que ilustra seu terceiro título, O rapaz que virou bode. “Aos poucos, ele se revelou um grande xilógrafo. Passou a receber encomendas de Giuseppe Baccaro, da Casa das Crianças de Olinda.”

Dez anos depois, o cordelista enveredou no ramo dos almanaques. Nascido em Sapé, na Paraíba, e morador de Condado, na Mata Norte de Pernambuco, José completa 93 anos hoje  “Costa Leite é um artista completo, exerce todas as atividade ligadas à literatura popular e, de feira em feira, tornou suas obras conhecidas”, frisa o autor. ” Em 2010, eu iniciei o doutorado e, em seguida, conheci Costa Leite. Na época, ele ainda ia à feira, arrastando sua mala cheia de folhetos, almanaques e xilogravuras“, lembra Cabral.

Aventura, amor, religião, cotidiano, festas e religião são alguns dos temas preferidos do artista popular. “Ele vendia no banco da feira e usava um microfone no pescoço. Chegou a vender 10 mil exemplares. Mas era criterioso: não escrevia sobre política, dizia que deixava isso para os outros.” Costa Leite já expôs sua obra nos EUA, França e Chile, além de vários estados brasileiros. Hoje, conta com um acervo de manuscritos inéditos e mais de 500 títulos publicados, alguns deles editados pela recifense Coqueiro, especializada em literatura de cordel.

 (Foto: Geovanni Cabral/Divulgação)
Foto: Geovanni Cabral/Divulgação

“A ideia de pesquisar a trajetória de José Costa Leite surgiu no mestrado. Eu estava pesquisando sobre os folhetos, de 1945 a 1954, de Getúlio Vargas e achei as xilogravuras e folhetos dele. ‘Quantas temáticas, quantas histórias’, pensei. Logo quis organizar um projeto para trabalhar a obra do poeta, a dinâmica das feiras em revelar e alimentar o ciclo produtivo dos artistas populares da época.”

O historiador conta que tem um carinho imenso pelas obras do poeta. “Considero Costa Leite o andarilho da poesia, da feira. Toda a expressividade que ele tem vem das feiras públicas, da voz, da rua, dos encontros. Cada dia que eu ia acompanhá-lo na feira ou conversávamos, era algo fantástico”, recorda.

O livro é composto ainda por relatos de amigos e familiares e documentações que mostram como o poeta e a memória são importantes para pensar a literatura e as práticas culturais. “A trajetória de Costa Leite envolve trabalho de memória, de pensar a feira na década de 1960, onde os poetas despontaram na literatura de cordel. Remete, inclusive, à memória do Mercado São José”, conclui.

Por Juliana Aguiar – Diário de Pernambuco

Redação GPS

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