Em 1976, o LP “Sambas Mediúnicos”, com músicas atribuídas ao Espírito Noel Rosa, ajudou a arrecadar recursos para a compra e reforma do primeiro prédio da SES, em Sapé
Por Jorge Galdino – Jornalista
Noel Rosa, conhecido como “Poeta da Vila”, um dos maiores compositores da música popular brasileira, ajudou a dar ao samba um lugar definitivo na cultura nacional. Décadas depois de sua morte, seu nome passaria a fazer parte de uma história incomum em Sapé: a gravação de um LP (Long Play), um disco de vinil que permite a reprodução de várias faixas de música por lado, também conhecido como “bolachão”. O disco “Sambas Mediúnicos” ajudou a bancar a compra e a reforma do primeiro prédio da Sociedade Espírita Sapeense (SES).

A iniciativa começou no início de 1976, quando Melcíades José de Brito, então interessado em fundar um centro espírita em Sapé, conheceu a médium paraibana Antônia Laudelino de Sena na Federação Espírita Paraibana (FEP), em João Pessoa. Segundo o histórico da entidade, Antônia dizia receber canções em ritmo de samba atribuídas ao Espírito Noel, referência associada a Noel Rosa.
Ao ouvir as composições, Melcíades enxergou uma forma de unir divulgação doutrinária e arrecadação de recursos. Com o consentimento da médium e de dirigentes espíritas, o projeto avançou. A ideia era gravar as músicas, vender o disco entre frequentadores de centros espíritas e usar a renda para estruturar a futura sede da SES.

A partir de maio de 1976, foram feitos contatos com a gravadora Rozenblit, no Recife, para produzir os primeiros mil exemplares de “Sambas Mediúnicos”. O cantor pernambucano Claudionor Germano ficou responsável pela interpretação das faixas. O LP foi concluído em setembro daquele ano e começou a circular entre centros espíritas de João Pessoa, Campina Grande e cidades do interior da Paraíba.
Enquanto o disco era preparado, Melcíades articulava a aquisição de um prédio no Centro de Sapé. Para garantir a posse do imóvel, a Sociedade Espírita Sapeense foi fundada oficialmente em 4 de julho de 1976. A instituição iniciou suas atividades regulares em 19 de março de 1977, na Rua Pedro Américo, nº 268, no Centro de Sapé. A rua atualmente recebe o nome de Av. Comendador Renato Ribeiro Coutinho e no citado prédio funcionou, até pouco tempo, a agência do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e atualmente, no local, funciona um academia.
A gravação e confecção do disco se deu em uma época que esse tipo de mídia era predominante e poucos artistas conseguiam gravar um LP por conta dos custos e da complexidade técnica, o que torna a iniciativa em Sapé um feito histórico com finalidades ainda mais nobres e muito mais importantes que a própria confecção do disco.
A venda do LP ajudou a custear parte da reforma do prédio e permitiu que a nova casa espírita começasse suas atividades de forma mais organizada. Embora a gravação tenha sido inicialmente paga com recursos próprios de Melcíades, a renda obtida com os discos foi revertida para a estruturação da entidade.
Com o tempo, a SES ampliou sua atuação religiosa e social. A instituição chegou aos 50 anos mantendo atividades doutrinárias, evangelização, acolhimento e ações assistenciais ligadas à Cidade Cristã. Em 21 de abril de 1979, a sede definitiva foi transferida para uma área de 20 hectares às margens da PB-004, no atual Loteamento Cidade Cristã.
O prédio inicial do Centro foi vendido posteriormente para ajudar na consolidação da nova área. Assim, “Sambas Mediúnicos” ficou como um episódio marcante da memória de Sapé: um disco de vinil nascido da fé, da arte e da mobilização comunitária, transformado em apoio concreto para uma obra que segue em atividade cinco décadas depois.
Este ano (2026), a Sociedade Espírita Sapeense completa 50 anos de fundação e festeja a data com a realização da 13ª Semana Espírita que terá encerramento neste sábado (12), na sede da entidade.
Letras e músicas
Das canções: o LP contém 12 sambas, ditados (letra e melodia) à médium Antônia Laudelino de Sena, em sua residência, pelo espírito Noel. O Portal GPS resgatou 06 trechos das músicas (áudios) e as letras das 12 músicas do disco. Confira abaixo:
1 –MEU SAMBA
Meu samba
O meu samba é diferente
É um samba do presente
Feito prá quem sabe amar
Não pensem
Que eu vim por brincadeira
Fazer samba do além
Só para dizer asneira
Fui um sambista
Que já teve o seu papel
E do mundo o que lhe resta
É o seu nome NOEL
2 – RECORDANDO
Recordando o passado
Vive alguém que já morreu
E tem seu nome gravado
Em um pobre mausoléu
Somente as sombras
Vêm fazer-lhe companhia
Adeus amigos, serestas
Adeus toda a boêmia
Mortos não são diferentes
Dos que no mundo ficaram
Aos vivos são semelhantes
Os que ao pó retornaram
3 – QUERO RENASCER
Quem já viveu lá no morro
Olhando pró céu
Pedindo socorro
Quem já sambou no asfalto
Vencido e cansado
Chorou e sofreu
Sente um vazio profundo
Que lhe deixou o mundo
Que nele viveu
Boêmios, amigos
Amores fingidos
De uma vida ao léu
Agora resta a esperança
Voltar, ser criança
E lembrar de aprender
Que amar é viver
4 – AINDA RECORDO
Ainda recordo a vida
Passada na boemia
E comigo um violão
Junto ao peito, ao coração
Noite e dia a dedilhar
E para muitos cantar
Uma inútil canção
Sob aplausos da plateia
De uma gente plebeia
Sem pudor e sem moral
Eu me declarava o “tal”
E o tempo foi passando
Pouco a pouco fui deixando
De pensar
Que era um mortal
Mas a lei é exigente
Veio a morte de repente
Meu corpo em cinzas tornar
5 – LEMBRANÇA, LEMBRANÇA
Lembrança, lembrança,
Lembrança que não se desfaz
Lembrança, lembrança
Da vida a memória me traz
Recordando as noites de lua
E o morro em silêncio a rezar
Em preces pedindo prá luta
Do homem no mundo acabar
Lembro ainda uma passarela
Nela escolas a desfilar
Cabrochas passando por ela
Cantando e o corpo a gingar
Lembrança de tudo o que fui
Do samba que é o “maioral”
Mas nele ninguém se instrui
Se não observa a moral
Recordando agora o passado
Não pretendo a ele voltar
Porque só trouxe desenganos
A quem viveu sempre a cantar
6 – HOJE EU PEÇO PERDÃO
Quem escuta este samba
Não pode avaliar
O que além da tumba
Fui na morte encontrar
Encontrei a tristeza
E muita solidão
E minh’alma chorosa
Hoje pede perdão
A quem não soube amar
Magoando o coração,
Magoando o coração
Magoando o coração (bis)
Muitos sambas criei
Para muitos sambar
Mas amor eu não dei
A quem devia dar
Por isso agora eu venho
Ao mundo alertar
Que o dever primeiro
Do homem é doar
E o que ele der, é certo
Vai no além encontrar
Vai no além encontrar
Vai no além encontrar (bis)
7 – SOU…EU SOU…
Sou, eu sou
Eu sou o boêmio antigo
Que hoje para o meu castigo
Muitos dizem que não sou
Sou, eu sou
Eu sou o Noel de sempre
Do passado e do presente
Do samba e do violão
Sou, eu sou
Sou aquele de verdade
Que sambava na cidade
Iludindo o coração
Mas, tudo passou tão depressa
Já não faço mais seresta
Nem dedilho uma canção
Pouco me importa essa gente
Que descrê e nada sente
E vive de ilusão
Eu declaro tão somente
Nas minhas tristes canções
Eu sou NOEL eternamente!
8 – VAIDADE, VAIDADE
Vaidade, vaidade
Foste a única culpada
Do meu grande padecer
Sofri toda a rebeldia
Que me inspiraste um dia
Acabado o meu viver
Ouçam agora o lamento
De quem sofreu o tormento
Que jamais pode esquecer
Escuridão, calafrio
E uma grande nostalgia
Mergulhado em solidão… ai
Nem sequer uma oração
Eu sabia recitar
E acalmar o coração
Aqui não há diferente
De cultura ou de crença
E as noites são sem lugar
Porque
Se na vida eu pequei
Mas na morte expiei
E aprendi o que é amar
9 – A VIRTUDE É A LEI
Ah saudade
Que eu sinto da favela
Lá no morro a vida é bela
Despida de vaidade
O luar é tão bonito
E as estrelas no infinito
Alegram o coração
Ao romper da madrugada
Se ouve a passarada
Como um canto de oração
E a nossa alma se desperta
Recordando a seresta
E o resto de uma canção
A cabrocha feiticeira
Quando passa tão faceira
Seu olhar traduz paixão
Coisas que eu tanto amei
Já não valem mais agora
A morte tudo transforma
E a virtude é que é a lei.
10- MEU AMIGO
Meu amigo, que tristeza
Eu senti ao ter certeza
Que já me tornara pó
E de meu triste passado
Sou o único culpado
Pois não sabia viver
Mergulhava todo dia
Minh’alma na boemia
Nela consumi meu ser
Quanto tempo acabrunhado
Eu vivi cá neste lado
Procurando esquecer
Minha vida de alegria
Transformada em nostalgia
Grande foi meu padecer
Amigo você não sabe
O que é a eternidade
Prá quem nada soube dar
No além se reconhece
Que a vida é uma prece
Feliz quem souber amar
11 – BATUCADA, BATUCADA
Madrugada
Batucada no morro
Em gemido e choro
A cuica afinada
Cabrochas
No terreiro sambando
Com malandros cantando
Melodias e sambas
Madrugada
Quanta recordação
Traz da vida passa
Por mim na ilusão
Batucada
Já não sou como outro
E em minh’alma hoje mora
Quem foi tão desprezada…
A moral que é somente
Respeitar toda gente
Dar amor e mais nada
12 – CHOREI, EU CHOREI
Chorei, ai chorei
Eu chorei desesperado
Triste só, por ter deixado
A vida que tanto amei, ai, ai
Chorei, ai chorei
Eu chorei amargamente
Quando a morte lentamente
Meu pobre corpo desfez, ai, ai
Chorei, ai chorei
Lamentando o meu passado
Todo ele mergulhado
Em orgia e desamor, ai, ai
Chorei, ai chorei
E confesso abertamente
O que fiz antigamente
Recordar me causa dó,
Mas eu chorei…
Da redação do Portal GPS com informações de Mecíades Brito.
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