Instituições ligadas à história do movimento espírita no município chegam a 2026 com ações doutrinárias, educacionais e assistenciais voltadas à população de Sapé e da região do Brejo paraibano
Por Jorge Galdino – Jornalista
Fundada oficialmente em 4 de julho de 1976, a Sociedade Espírita Sapeense (SES) iniciou suas atividades regulares em 19 de março de 1977, em prédio situado na Rua Pedro Américo, nº 268, no Centro de Sapé. A instituição nasceu com personalidade jurídica, estatuto, CNPJ e diretoria, tendo como finalidade divulgar a Doutrina Espírita em seu tríplice aspecto — ciência, filosofia e religião — e desenvolver ações de assistência social inspiradas nos princípios cristãos.
Após breve passagem por outros endereços, a sede da entidade foi transferida definitivamente, em 21 de abril de 1979, para a área localizada às margens da Rodovia PB-004, km 32, atual Avenida Comendador Renato Ribeiro Coutinho, no Loteamento Cidade Cristã, bairro Cuba de Cima, em Sapé-PB. O terreno de 20 hectares abrigaria, anos depois, uma das iniciativas sociais mais conhecidas da cidade.

Ao longo de cinco décadas, completadas em 4 de julho de 2026, a Sociedade Espírita Sapeense manteve atividades ininterruptas, como palestras públicas, reuniões doutrinárias, trabalhos mediúnicos, evangelização, seminários, semanas espíritas, manutenção de livraria e distribuição de mensagens de orientação Cristã. As reuniões públicas ocorrem às terças, quintas e sábados à noite; os encontros restritos a trabalhadores e médiuns acontecem às segundas e quartas; e as atividades com mães e crianças em situação de vulnerabilidade são realizadas às quartas-feiras à tarde, além da distribuição quinzenal de sopas aos sábados.
A história da instituição está ligada aos fundadores Melcíades José de Brito e João Tomaz de Aquino, já falecido. Em seus primeiros anos, a entidade chegou a manter uma gráfica, encerrada em novembro de 1978 por dificuldades financeiras. O antigo prédio da Rua Pedro Américo foi vendido para amortizar dívidas contraídas com a aquisição da área onde hoje funcionam a sede da Sociedade Espírita Sapeense e as atividades da Cidade Cristã.
Já a Cidade Cristã teve fundação de fato em 25 de dezembro de 1977, como trabalho assistencial da Sociedade Espírita Sapeense. Em 25 de dezembro de 1992, passou a ter personalidade jurídica própria, com estatuto, CNPJ e diretoria distinta, conforme exigências legais que levaram à separação entre as atividades doutrinárias e assistenciais. Desde então, a Sociedade Espírita Sapeense concentrou sua atuação na divulgação da Doutrina Espírita, enquanto a Cidade Cristã passou a dedicar-se especificamente à assistência social às famílias em situação de vulnerabilidade em Sapé. As Instituições estão ligadas à história do movimento espírita no município e chegam a 2026 com ações doutrinárias, educacionais e assistenciais voltadas à população de Sapé e da região do Brejo paraibano.
Localizada em zona urbana, a cerca de 50 quilômetros de João Pessoa, a Cidade Cristã ocupa área de 200 mil metros quadrados. A instituição possui registro junto ao Conselho Nacional de Assistência Social e reconhecimento de utilidade pública municipal, estadual e federal. Atualmente, mantém unidade assistencial em parceria com o Lar Fabiano de Cristo, com creche, Centro de Convivência do Idoso e cursos profissionalizantes para mães, além de unidade escolar e posto de saúde em parceria com a Prefeitura Municipal, ginásio de esportes e bazar com peças usadas vendidas a preços módicos.
Entre 2004 e 2018, a Cidade Cristã também manteve um Restaurante Popular no bairro Abel Cavalcante, onde foram fornecidas 882 mil refeições a preços populares. O serviço foi encerrado em razão do esgotamento da capacidade do terreno de absorver os dejetos produzidos diariamente em fossas sépticas.

No espaço físico atual da Sociedade Espírita Sapeense, em 2026, há um prédio de aproximadamente 500 metros quadrados, com estacionamento, recepção, livraria, sala de diretoria, almoxarifado, varanda, auditório para 100 pessoas, sala de atividades mediúnicas, sala da infância e juventude, despensa, cozinha, refeitório, banheiros masculino e feminino e quintal.
Melcíades Brito fala sobre a origem da Cidade Cristã
A origem da Cidade Cristã é narrada por Melcíades Brito como fruto de uma experiência espiritual vivida em 1975, quando ainda frequentava o curso de Direito na Universidade Federal da Paraíba. No relato, preservado a seguir, ele descreve a visão que teria inspirado a criação da obra assistencial:

“A obra nasceu de uma visão que tive quando frequentava o curso de Direito na UFPB, em 1975. Estando numa área externa daquela Universidade, observando os jardins e os prédios que compõem o conjunto dos cursos ali oferecidos, percebi que aqueles prédios iam tomando nova aparência, separados uns dos outros e, ao invés de sala de aula eles se apresentavam como núcleos de caridade, onde eram atendidos crianças, jovens, adultos e idosos.
Ao mesmo tempo em que observava a visão da mudança das edificações, senti, mentalmente, a intuição de que aquilo representava uma instituição espírita de caridade, para a qual eu estava sendo chamado a trabalhar e, ao buscar recuperar a memória para o local em que me achava, percebi que ao invés de cidade universitária brilhava uma placa onde se lia “CIDADE CRISTÔ.
Depois dessa visão passei a alimentar o sonho de fundar uma instituição semelhante àquela e sempre que tinha oportunidade, rabiscava, em pedaços de papel, o nome Cidade Cristã, desenhava croquis de unidades assistenciais, projetava ruas e praças, até que cheguei a definir que para aquela obra seria necessária uma área de 20 hectares. Antes da CIDADE CRISTÃ veio a Sociedade Espírita Sapeense. Foi por mim fundada em 04/07/1976 e funcionou inicialmente num prédio no centro da cidade de Sapé.
Em setembro de 1977 estando na UFPB fui tomado novamente por um momento espiritual. Embora estando em plena aula, desliguei-me do assunto que o professor ministrava e, de forma compulsiva comecei a recordar a visão da Cidade Cristã. Fiquei alguns minutos insistindo com aquela recordação, quando um fenômeno muito forte tomou conta de mim. Um estado de perda de consciência, com aceleração das pancadas do coração e um certo receio de que estivesse doente da mente.
Impulsivamente, sai da sala de aula e me dirigi ao meu carro. Abri a porta, sentei no banco encostei a cabeça no volante da direção e, naquele estado de semiconsciência, fiz uma prece pedindo a Deus para me livrar daquela opressão. Enquanto orava escutei, não pelos ouvidos, mas pelo cérebro, uma voz que me disse: Compre o terreno de José Leite! Ouvi aquilo, pensei rápido no assunto, voltei à prece. Inesperadamente, o fenômeno cessou e recuperei meu estado de normalidade.
No dia seguinte, estando no 1º. Andar do Banco do Brasil em Sapé voltei a sentir a mesma sensação da noite anterior. Fiquei apavorado. Pensei tratar-se de obsessão ou estafa. Semiconsciente e com o coração muito acelerado, sai de onde estava e tomei a escadaria em direção do andar térreo. Então a voz, de dentro do cérebro, repetiu: Compre o terreno de José Leite! Ai, lembrei-me que na noite anterior eu tinha ouvido a mesma coisa. Nisto, olho adiante e vejo, diante de mim, um cidadão que conhecia de vista e cujo nome era José Leite. Fui até ele e travamos o seguinte dialogo:
– Você tem um terreno para vender? E ele, meditando um pouco, disse:
– Vendo.
– Onde fica?
– Aqui perto do Banco do Brasil.
– Qual tamanho? E ele respondeu:
– 20 hectares!
Aí eu entendi tudo. Voltei ao meu estado normal. Naquele mesmo momento fomos visitar o terreno. Era um canavial. Paramos num ponto elevado, onde pedi, em prece a Deus, que se fosse do meu programa de vida construir a CIDADE CRISTÃ, que ele me mostrasse como comprar aquele terreno. No local em que descemos, encontra-se erguida a Pedra Fundamental (um monumento, onde foi aposta uma placa de bronze, com os seguintes dizeres: “HOMENAGEAMOS JESUS, DEDICANDO-LHE ESTA CIDADE CRISTÃ, COMO TESTEMUNHO DE GRATIDÃO PELO EVANGELHO, REVIVIDO PELA DOUTRINA ESPÍRITA”. A CIDADE CRISTÃ foi criada como uma homenagem a Jesus.
A aquisição se deu pelo valor de Cr$ 450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil cruzeiros) – dinheiro da época. Não dispúnhamos de um só centavo e recorremos a bancos para levantar aquele valor. Para resumir, foi muito difícil quitar a dívida, por conta dos encargos financeiros. Doamos patrimônio pessoal, alienamos o antigo prédio da Sociedade Espírita Sapeense e loteamos 03 dos 20 hectares originais. Foram cinco anos de muita preocupação e até de empobrecimento financeiro pessoal”.
A partir da aquisição da área, o trabalho assistencial foi iniciado com a distribuição semanal de sopas, beneficiando cerca de cem pessoas. Com o tempo, as ações foram ampliadas para atendimento odontológico, criação da Unidade Escolar Cidade Cristã, implantação de creche, Centro de Convivência do Idoso, posto de saúde, centro profissionalizante, estação digital e ginásio de esportes.
Conheça o Lar Fabiano de Cristo
Da redação do Portal GPS com informações de Melcíades Brito.
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